Um toque de Francisco
17/09/2018

A madrugada é fria e agora chove. Estamos encerrando mais uma ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco nesta terça-feira, 11/09. Os pães, os gêneros, as roupas, os cobertores... nada do que levamos para distribuir entre os irmãos moradores de rua foi suficiente para atender à demanda. O número de irmãos desvalidos só tem crescido a cada semana.

Então, no último grupo visitado por nossos voluntários, um dilema. Um homem me pede mais um pão. Sobrara um na caixa e um pouco de café. Mas eu hesito. O primeiro impulso é atender o pedido. Afinal, o irmão tem fome e aquele é o último grupo visitado na noite. Mas a intuição me detém e muda a resposta. Peço-lhe que me desculpe, mas não entrego o pão, o último pão.

O coração manda dar uma volta nas quadras próximas antes de entrarmos no caminho de volta para o Sapiens. E eis que na primeira curva o amor confirma porque tem razões que a própria razão não entende. Do carro olhamos para a praça e logo localizamos, debaixo do banco, um irmão coberto por trapos, magro, esquelético mesmo, dormindo ao lado de sua bengala. É Washington, nosso velho conhecido. Figura pacífica, vítima profunda do alcoolismo, neste momento tremendo de frio e fome.

Um de nossos cuidadores o ampara e o transporta pacientemente para a varanda de um restaurante, fechado a essa hora, a fim de protegê-lo da chuva que se intensifica por alguns minutos. Enquanto saboreia o pão, nosso último pão, com o meio copo de café que restara ao fim da longa ronda jornada, Washington nos fala de sua vida, de algumas duras experiências recentes, mas não disfarça o frio no corpo que a camiseta suja não consegue aquecer. O que fazer? Já não temos roupas nem alimentos para doar. Apenas nossa presença, nossa escuta, nosso abraço fraternal e desarmado.

Já resignados à nossa limitação, iniciamos as despedidas. Mas, de repente, os céus se manifestam com a sua marca inconfundível de "milagre do coração". Para nossa surpresa, um de nossos jovens voluntários se volta para o mendigo, desfaz-se de sua própria camisa, veste-o e, apesar das ponderações do próprio beneficiado, dispõe-se a voltar para casa desprotegido.

Uma suave emoção nos envolve. Estamos todos felizes. Na calada da noite, Francisco irrompera em nossa rotina e repetira seu gesto solidário nas estradas da Úmbria, 800 anos atrás, desfazendo-se de suas túnicas para cobrir irmãos mendigos e leprosos.

Alegria! Na nossa madrugada, um toque de Francisco e do Senhor de Francisco. Um toque de certeza: sim, a primeira meta da ação singela dos Cuidadores de Francisco é não permitir que a chama do amor se apague em nós.

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As razões do amor
08/06/2018

A pergunta é antiga, mas é sempre repetida pelas pessoas que expressam dúvidas sobre ações sociais como a dos Cuidadores de Francisco, do Sapiens:

- Não é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe? Oferecer comida sem exigir alguma reciprocidade no sentido da transformação interior não seria perpetuar as pessoas na miséria e na dependência?

O questionamento nos remete à promoção social, necessária e urgente, mas dissimula nossa ignorância quanto aos direitos fundamentais do homem e a nossa indiferença ante o sofrimento do irmão, nossa dificuldade de ser simplesmente compassivo.

Nós, Cuidadores de Francisco, aplaudimos todas as iniciativas que visem o desenvolvimento pessoal e social. Mas, não dispondo de estrutura e recursos para uma grande ação social, jamais deixaremos de dar o peixe - e de modo incondicional, sem exigir demonstrações de transformação íntima e social de qualquer irmão carente.

Fazemos isso inspirado na própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, que realça o direito básico de todo homem à vida, à alimentação e à moradia, independentemente de sua condição moral. Fazemos isso inspirados, sobretudo, em Jesus que de forma literal nos recomendou a assistência aos que tem fome e sede, aos doentes e aos presos. E, ao fazê-lo, olhamos para Francisco de Assis que, assumindo a imitação plena da vida de Jesus, jamais discriminou irmãos na distribuição de seu amor, elegendo entre seus o preferidos os "não amáveis": os mendigos, os leprosos e os assaltantes das estradas.

Ao fazermos a nossa parte, tão pequena e despretensiosa, não escarafunchamos a ferida da vida dos irmãos carentes. Não lhes perguntamos de onde vem, o que fazem, por que estão vivendo nas ruas. Abraçamos, sorrimos, brincamos e, a partir daí, estabelece-se o vínculo através do qual, eventualmente, alguns buscam junto a nós o alívio e a orientação espiritual, confessando-nos suas dores e dificuldades. Nao lhes impomos as nossas crenças, tentamos revelá-las apenas no modo fraterno de acolhê-los. Não os julgamos nem os condenamos sob qualquer pretexto.

Se você é capaz de sentir o nosso coração nos argumentos acima, se você é capaz de entender que as razões do amor e da compaixão estão acima de qualquer regra, então você está pronto para colaborar ou participar dos Cuidadores de Francisco.

Neste momento, precisamos urgentemente da doação de feijão e arroz, pois nosso estoque desses gêneros está zerado. Também precisamos de manteiga e leite em pó. Ouça o seu coração e, se ele concordar, faça a sua oferta.

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A crucificação em 2018
30/03/2018

Onde você estava na madrugada desta Sexta-Feira da Paixão de chuvas intensas e queda da temperatura? Imagino que em sua cama, debaixo de um cobertor morno, bem alimentado, seguro em sua casa estável. Eu também. Mas o meu despertar, nesta data em que a maioria dos cristãos relembram o abandono e a dor a que Jesus foi relegado por seus contemporâneos, não foi tão tranquilo.

Acordei pensando em Luis. Acordei perguntando ao meu coração, acomodado ao conforto material e psicológico de minha rotina, aonde estaria aquele velhinho que semanalmente é visitado pelos irmãos que, junto comigo, realizam as rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco. Teria ele passado a noite anterior em seu Getsêmani, sufocado em lágrimas ocultas ante a aproximação da morte? Estaria ainda vivo?

Na terça-feira passada não o encontramos em seu cama habitual: a calçada dura de um posto policial desativado. Era quase meia-noite, chovia brando, mas o lugar já estava encharcado. Então, pensei: hoje ele deve estar dormindo em seu "apartamento", e acertei. Numa rua próxima, encontramos Luis instalado sobre um banco de cimento sem encosto, de não mais que 40 centímetros de largura, dormindo enquanto o corpo, por automatismo, equilibrava-se para não cair. Tinha a proteção da varanda de um restaurante, fechado àquela hora. Não tinha lençol, apesar do frio e da umidade. O travesseiro era uma velha mochilinha em que ele guarda alguns trapos. Nada mais possui.

O velhinho - é essa a aparência deste homem de pouco mais de 50 anos - está muito pálido e frágil. Seus pés inchados, suas mãos trêmulas. Luis, penso, está com seus dias contados, mas surpreendentemente transparece imensa resignação. Não se queixa, só agradece. Não fala de sua vida, de seus sofrimentos. Só agradece. "Obrigado, obrigado", diz ao receber o cobertor, o lanche, o café quente, o carinho em seu corpo. O máximo (o máximo?) que podíamos ofertar-lhe naquele momento.

Acordei pensando em Luis, em Luis crucificado, e meu coração foi sufocado pela memória de tantos crucificados que encontramos nas ruas da cidade e pelos quais fazemos tão pouco. Diante de suas cruzes, afastamo-nos na ilusão de que, assim, nenhuma culpa cairá sobre nós. Diante de sua dor, sentimo-nos incomodados em nossa paz de sepultura.

Jesus, crucificado nas ruas e em todos os antros a que relegamos os indesejáveis, os não amáveis, tende piedade de nós!

                                                                 *    *    *

Os Cuidadores de Francisco precisam de lençóis usados, bermudas e camisetas limpas e em condições de uso, sandálias havaianas, feijão e arroz. Ouça o seu coração. Se ele foi tocado, venha conosco. Há irmãos crucificados à nossa espera.


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Um Feliz Aniversário!
15/03/2018

Quanto valem o sorriso e o abraço de uma criança pobre, repartindo com você a felicidade que você acaba de proporcionar-lhe? Quanto valem a palavra carinhosa e o sorriso do irmão que dorme na calçada, alegre por estar fazendo parte de sua comemoração? Quanto valem a agitação pacífica e as palavras ternas de quem se sente invisível aos olhos indiferentes da sociedade ao se perceber reconhecido pelos seus olhos?

O que o amor produz é imensurável e jamais poderá ser avaliado por outra coisa senão o genuíno contentamento do coração.

Na terça-feira passada, nós, Cuidadores de Francisco, voltamos a experienciar momentos assim, de muita intensidade amorosa ao reunirmos os irmãos assistidos por nosso grupo em torno da amiga do Sapiens e colaboradora Bertha Elina de Oliveira, que decidiu comemorar seu aniversário junto aos companheiros carentes das ruas. Bertha mora em João Pessoa, mas com bastante frequência ajuda aos Cuidadores de Francisco a realizar sua missão nas ruas de Natal. Na comemoração de seu dia, ela percorreu 200 quilômetros para desfrutar da alegria de oferecer uma refeição especial e kits de higiene aos irmãos que a acolheram com carinho e respeito.

Bertha inspirou-se no exemplo do companheiro Júlio César Bezerra, que no ano passado festejou seu aniversário com os irmãos prediletos dos Cuidadores de Francisco. Tomara que, agora, o exemplo dela venha a inspirar outras pessoas, participantes ou não do Sapiens. Acima desses corações fraternos, está a sugestão amorosa de Jesus, para que, ao darmos uma festa, convidemos os pobres, os mendigos, enfim os irmãos mais necessitados, impossibilitados de nos retribuir o presente material, embora, como nos prova a experiência, costumem exceder-se na doação do presente mais valioso para qualquer ser humano: o carinho e o contentamento.

Gratidão a Deus e todos os amigos do Sapiens que, com suas doações e participação, garantem a repetição semanal de nossas rondas compassivas na escuridão das noites e madrugadas.

Ouça o seu coração. Gostaria de colaborar? Nesta semana precisamos, sobretudo, de lençóis, roupas masculinas e femininas e sandálias havaianas novos ou usados (limpos e em condições de uso). A qualquer momento são bem-vindas as doações de feijão e arroz.


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Onde está você, Ângelo?
25/02/2018

Passaram-se já dois meses desde a noite em que Ângelo, magoado e deprimido, lançou-me a questão nascida de sua sensação de abandono. Nas semanas anteriores, em outras visitas dos Cuidadores de Francisco, eu já o observara, retraído e desconfiado apesar de nossas saudações. Ficava sentado na sarjeta e limitava-se a receber o lanche, que retribuia com um "obrigado" formal.

Naquela noite, no entanto, o acordes do violão de Nicácio e a seresta improvisada pelos cuidadores desataram os nós que mantinham seu coração prisioneiro. Quando olhei para ele, levantou-se, encarou-me, elogiou o trabalho fraterno de nosso grupo e, aproximando-se, passou a falar com surpreendente desenvoltura: 

- Você acha que eu sou ninguém? - disse o morador de rua.

- Você é meu irmão - respondi, olhando firme em seus olhos.

- Mas Fulano (e disse o nome do religioso) costuma dizer que nós, moradores de rua, somos ninguém - queixou-se o mendigo.

- Será que ele não quer apenas estimular vocês a superarem as suas dificuldades? - ponderei, considerando a boa intenção que podia existir na alma do religioso rígido.

- Eu discordo - disse Ângelo. Acho que Jesus não nos vê assim. Ele conviveu com pessoas como nós quando esteve aqui.

Seu argumento encerrou o diálogo. Meu coração confirmou à minha mente: ele tem razão.

Olhei mais fundo no fundo dos olhos do mendigo. O homem negro, forte como um lutador de sumô, então parecia uma criança a pedir colo. Abracei-o e susurrei ao seu ouvido:

- Você está certo. Jesus é nosso irmão.

Ângelo abraçou-me forte e mais forte, como ninguém jamais me abraçara. Parecia ter encontrado um alívio há muito esperado. Desculpei-me por estarmos ali encerrando a jornada dos Cuidadores de Francisco em 2017 e exortei-o a manter-se firme em sua convicção, usando-a como ponto de apoio para reescrever a sua história. Deixei claro que nosso desejo era reencontrá-lo este ano em outra condição, talvez no aconchego da família, na segurança de um trabalho, na alegria de enfrentar desafios, mas que estaríamos também prontos para oferecer-lhe presença, escuta e ajuda em 2018 se ele ainda necessitasse. Separamo-nos na escuridão da noite, abençoando-nos reciprocamente com palavras de gratidão.

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Por onde andará Ângelo? É a pergunta que nos fazemos agora, no limiar de uma nova jornada dos Cuidadores de Francisco. Que ele esteja melhor do que em dezembro!

Estaremos de volta às ruas, a partir desta terça-feira, 27 de fevereiro, prontos para reafirmar aos irmãos que dormem nas calçadas que eles não são invisíveis, que os amamamos como irmãos queridos e, como bem disse Ângelo, para Jesus, para Francisco de Assis e para todos os que tentam emular o seu exemplo eles são companheiros dignos de atenção preferencial em nosso exercício de amor e compaixão.

Para 2018 contamos com a ajuda de todos os generosos amigos do Sapiens que, em 2017, sustentaram a nossa prática singela com participação e doações. Agradecemos aqueles que já e anteciparam e realizaram doações na semana passada e aguardamos pelos que agora ouvem o nosso chamado.  Nesta largada precisamos, sobretudo, de feijão e arroz, sandálias e camisetas.

O Senhor os abençoe e os guarde! Gratidão imensa!
A Paz do Cristo! A Paz de Francisco! Namastê! Om mane padme hum! Shalom! Salaam! Axé!


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A descida
16/10/2017

No meio da noite, o homem elegantemente vestido nos surpreende durante mais uma ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco. Está rodeado de irmãos moradores de rua, esfarrapados e, alguns deles, famintos. Na aparência, seu contraste com o grupo é imensa. Dilson, este é o seu nome, está bem alimentado, parece saudável e expressa-se em bom português. Mas...

Quando começamos a conversar, ele se emociona. Dilson tem família, casa, emprego e alguns bens, como casa e moto, mas havia três dias que dormia nas calçadas e aqueles seriam seus companheiros daquela madrugada. Fora expulso do lar pela própria esposa, cansada de esperar pelo cumprimento de uma promessa nunca honrada: deixar o vício da bebida para livrar-se das consequências morais, afetivas e materiais que a dependência não parava de aumentar.

Dilson tem consciência de sua situação. Não critica a postura de sua mulher e uma lágrima rola em sua rosto quando fala de suas duas filhas. Mas não consegue largar o vício sedimentado em alguns anos.

Diante de seu drama, sentimo-nos impotentes. Enquanto repartimos com ele o lanche que levamos aos irmãos sofredores das ruas, tento convencê-lo de que é necessário urgentemente dá o primeiro passo: buscar ajuda em um grupo como o Alcoólicos Anônimos, cuja metodologia tem se mostrado muito eficaz no controle e reversão do alcoolismo, buscar ajuda psicológica especializada se puder e, sobretudo, buscar um caminho espiritual em que possa redefinir sua visão de mundo e sua caminhada.

Dilson está em processo de descida. Muitos irmãos que hoje vagueiam pelas ruas, subjugados a drogas pesadas e com suas vidas destroçadas, começaram assim. Que nossa palavra fraterna possa ecoar em seu coração, catalizando-lhe forças para o recomeço. É tão pouco o que lhe oferecemos. Não temos mais. Mas confiamos no amor que sustenta nossos passos curtos e nossa ação singela nas noites dos esquecidos. O amor de Deus opera "milagres" a todo momento. Quem tem "olhos de ver", pode reconhecê-los.

Gratidão a Deus e a todos os amigos do Sapiens que, com doações e participação, garantem a continuidade das rondas dos Cuidadores de Francisco e mantêm acesa a chama da compaixão.

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Primeiro, o pobre
04/10/2017

A ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco desta terça-feira, 3 de outubro, foi singela como em todas as terças. Mas esteve revestida de um brilho especial. Em 3 de outubro de 1226, enquanto o sol declinava atrás dos montes de Assis, Francisco, nu, deitado sobre o chão de uma cabana, morria suavemente em meio aos versos e acordes do Cântico das Criaturas, o hino que ele próprio compusera, um ano antes, para exaltar o amor e a misericórdia de Deus manifestada em sua criação. A voz emocionada do pequeno grupo de fradinhos e o violino de Pacífico davam ares celestes à partida do santo.

Música e alegria em gratidão a Deus, queria Pai Francisco. Gratidão e paciência aliviando as feridas do corpo, curando as feridas da alma. A sublime recompensa da paz. O fruto do amor incondicional.

Durante 20 anos, uma história de fé e compaixão havia sido escrita por uma alma despojada e corajosa. Uma vida dedicada aos esquecidos do mundo, memória viva e atuante de seu Mestre - Jesus! Primeiro, os pobres, os mendigos. Depois, os leprosos. Na sequência, os ladrões, sobre os quais ele pensava teriam outra história se não lhes tivesse faltado amor e pão. Por fim, a humanidade, os animais e as plantas, as pedras, o céu... o universo inteiro, sinfonia indescritível do Criador.

Pai Francisco, ensina-nos a seguir-te! Ensina-nos a jogar ao batente a bolsa das moedas, como fizestes em São Damião, e nos lançarmos por inteiro nas mãos de Deus para servir conforme a vontade da Fonte.

No rosto do irmão pobre e discriminado, vemos teu rosto, como no do leproso vistes o de Jesus. Pai Francisco, anima-nos, para que o medo  e as ciladas do egoísmo não ofusquem o nosso amor.

Diante de ti e de teu Senhor, renovamos o compromisso.

Gratidão imensa a Deus e aos amigos do Sapiens que, com suas doações e participação, ajudam-nos a manter acesa a chama amorosa dos Cuidadores de Francisco. Paz e Bem!


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Dois lados da dor na noite escura
30/09/2017

É quase meia-noite. No final da fila de irmãos carentes em busca das singelas doações dos Cuidadores de Francisco, a mulher magra, descabelada e coberta por trapos não pode esconder a agitação. Seus olhos faíscam, sua boca murmura, aparentemente está sob o efeito de alguma droga. Aproxima-se de mim e pede uma roupa, mas, contemplada, reage com gritos e palavrões. O que demos não lhe agrada e ela se sente preterida. Enfurece-se quando a chamo de "minha filha" e toco carinhosamente seu ombro. Ameaça bater. Grita que é "Lúcifer" e ordena que jamais voltemos àquele grupo. Não reagimos, faz-se silêncio no grupo ruidoso. Ela ensaia uma agressão e hesita. Finalmente, quando entro no carro, a mulher avança sobre o veículo, golpeia os vidros das janelas, dispara muitos palavrões.

Já passa da meia-noite. Na calçada da esquina, um irmão carente dorme. Paramos para colocar ao seu lado o lanche que lhe será útil mais tarde. Nesse momento, um jovem magro e aparentemente faminto cruza a rua, segurando papelões que lhe servirão de cama. Caminha em nossa direção. Aproxima-se tranquilo e tranquilo nos pede, mais com os olhos do que com palavras, o café com leite e o sanduíche que o deixarão menos desnutrido. Oferecemos-lhe com carinho, ele agradece, quase inaudível. Afasta-se em direção à parede. E então, para nossa surpresa, ajoelha-se e levantando para o Céu o alimento que lhe demos, ora, agradecido, em silêncio respeitoso. Faz frio e lhe dou uma malha. Seus olhos brilham e minha emoção transborda. Ao seu ouvido, sussurro com o coração: "Deus te abençoe, meu filho. Obrigado por nos ensinar a gratidão!"

Na solidão das ruas desertas, os irmãos carentes são gente como a gente. Reagem a dor imensa do abandono e da indiferença conforme seu nível espiritual e capacidade de resiliência. A compaixão os envolverá sempre com equidade, o amor os acolherá sem expectativas e exigências. Acima de ambos, e de todos nós, a misericórdia essencial de Deus, continuará fazendo com que brilhe o Sol e caia a chuva sobre bons e maus, justos e injustos, conforme disse Jesus.

A paciência de Deus! A paciência de Deus!, diria o pobre Francisco, que nos inspira e sustenta com a sabedoria da simplicidade. Como Leão, seu amigo fiel, também não saberíamos responder, se ele nos perguntasse sobre o maior atributo divino. O pobre Francisco diria, outra vez: "A paciência! A Paciência".

Na solidão das ruas desertas, essa é também a nossa súplica: Pai Francisco, não nos deixe esquecer a paciência de Deus! Precisamos dessa rememoração para prosseguirmos com alegria e, sobretudo, para manter acesa, em nós, a oscilante chama do amor.


Gratidão imensa aos amigos do Sapiens que, com suas doações e participação, garantem, a cada semana, a continuidade das rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco.

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Sem medo e em paz
17/08/2017

Não temas, ó pequenino rebanho
Jesus (Lucas 12:32)


A situação social - e, principalmente, psicológica - da sociedade pede de nós, Cuidadores de Francisco, ainda mais clareza, confiança e compaixão. Os grupos de irmãos necessitados ampliaram-se e, com isso, vieram desafios novos como o de saber multiplicar e dividir melhor o pouco que temos para aliviar o sofrimento de quem vive nas ruas e o de administrar com equilíbrio as pulsões egoicas de quem busca auxílio. O que era raríssimo, como as demonstrações de agressividade, passaram a acontecer com mais frequência. Há mais gente embriagada e drogada disputando um pouco de alimento e outros itens necessários à sobrevivência. E é preciso saber dosar sentimento e racionalidade para atender ao maior número de necessitados de modo justo, sem perder o rumo e a nossa essência. Presença, escuta paciente, sorriso, abraço e palavra amiga continuam sendo e sempre serão a nossa mais preciosa doação.

A generosidade e a sabedoria também se manifestam nesses momentos. Irmãos sofredores atuam como nossos auxiliares, acalmando ânimos e, não raro, pedindo que desculpemos esse ou aquele excesso praticado por algum necessitado, o que, aliás, não se faz necessário, pois encaramos essas oscilações como fatos naturais e previsíveis sempre que se lida com a dor e a condição humana, principalmente em situações extremas, como a dos irmãos em situação de rua.

Estamos ativos e assim continuaremos - sem medo e em paz! A cultura do medo é o combustível da violência. Ela ergue as barreiras do preconceito, aprisiona-nos aos nossos interesses avaros e nos conduz ao equívoco de achar que só a força bruta pode resolver a questão da criminalidade. Engano, engano. A criminalidade é o resultado de uma sociedade construída sobre a base do egoísmo. É o resultado da injustiça social e da ignorância que sustentam os valores anti-éticos em todos os estratos sociais, com o cultivo do materialismo e da ganância. Sem educação integral (o que inclui valores e reflexão) e sem estabelecer a equidade, a justiça, nada nos protegerá. Nada pode conter o homem encurralado. Nenhuma força pode deter massas humanas sem perspectiva, humilhadas e estimuladas a acreditar no triunfo do mal diante do exemplo de estruturas e líderes corrompidos. Olhemos para os dias que antecederam a Revolução Francesa. Olhemos para a história, pontuada de episódios semelhantes.

Dos Cuidadores de Francisco esperamos a vivência de nossa crença comum e a confirmação, pela vivência sem medo e em paz, dos valores que consideramos fundamentais para um mundo melhor. Acreditamos no amor, acreditamos na essência luminosa do ser humano e na possibilidade de reeducação do homem, acreditamos na força do diálogo a partir de um coração puro e desarmado. Nossa ação tão pequena visa impedir que a chama dessa crença se apague em nós e em outros homens e mulheres.

Isso não nos coloca à parte da vida nem nos livra de seus riscos. A prática espiritual ou amorosa não é armadura que nos isola da realidade e nos livra incondicionalmente dos efeitos da ignorância pessoal ou coletiva. Seu benefício para o praticante é clareza, centramento, paz e alegria extraída do ato de servir. O medo é filho do egoísmo e pai da violência. A paz, fruto do amor, que aceita, abraça e age.

Gratidão a Deus e aos amigos do Sapiens que, com doações e participação, sustentam as nossas rondas compassivas juntos aos irmãos carentes.

Conheça nosso trabalho singelo, ouça o seu coração e, se possível, colabore.


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A Providência
13/07/2017

A noite da terça-feira, 11/07, estava mais fria que as anteriores deste inverno. Talvez tenha sido a noite mais fria do ano, após dias seguidos de chuva intensa. A ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco começou com uma bênção. Na hora de sairmos às ruas, a chuva insistente deu uma trégua. Nossa previsão era de que encontraríamos menos irmãos carentes nas calçadas e esquinas: em noites frias eles se dispersam à procura de algum abrigo junto a frestas de prédios, carrocerias de caminhões e carros abandonados e mesmo buracos. Mas não estávamos certos. Na terça-feira, os pontos onde se reunem os grupos que assistimos às terças-feiras estavam repletos de necessitados.

Tivemos que racionar os lanches e ser mais cuidadosos com a distribuição de lençóis. Alguns irmãos estavam famintos. Queriam repetir o lanche, mas não podíamos atendê-los, pois pensávamos nos grupos que seriam visitados em seguida. A um dos carentes que insistiam por "mais um pão, mais um café com leite", perguntei: porque tanta gente? De onde vieram tantas pessoas? "Vai aumentar", respondeu o rapaz, com lucidez. Então me lembrei da difícil situação do país, em que os mais pobres são os que mais sofrem, os que primeiro perdem suas fontes de renda e de vida digna. A necessidade obrigara a tantos a enfrentarem o frio por um simples sanduíche após um dia de pouco ou nenhum alimento.

Perto do final de nossa rota já tinhamos como certo que faltaria alimento para o último grupo a ser visitado. Então, a Providência atuou. No penúltimo grupo encontramos jovens evangélicos que chegaram também com café e pães e, assim, pudemos poupar a nossa provisão e seguir adiante, apesar do pedido dos irmãos carentes para que servíssemos o que tínhamos, pois queriam além do que lhes era servido pelos evangélicos. Explicamos a nossa intenção, fomos compreendidos (como sempre acontece em situações assemelhadas) e seguimos adiante.

Ainda assim, na última etapa da ronda dos Cuidadores de Francisco, já na madrugada da quart-feira, faltou pão para um irmão mendigo, dificuldade prontamente superada pela solidariedade dos demais carentes, que repartiram suas cotas com o companheiro não contemplado. Faltaram roupas, faltaram lençóis. Mas em nenhum momento faltou presença, escuta, carinho, abraço... O amor é sempre pleno e suficiente.

Gratidão a Deus e aos amigos dos Sapiens que, com suas doações e participação, garantem a continuidade dessa corrente solidária.


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A bênção
30/06/2017

No início da madrugada fria, aproximamo-nos do pequeno grupo de irmãos que dormem numa calçada, alguns deles sem lençol e outro sem camisa. Ouço a voz que, baixinho, comunica ao companheiro: "Chegou a nossa bênção". É uma expressão simples, palavra sincera, pronunciada sem estardalhaço. E isso mexe profundamente com o meu coração. Sinto vontade de chorar sob uma a mistura de emoções contraditórias. Naquele grupo não há mendigos à espera de esmolas, mas trabalhadores informais, modestos biscateiros, que depois de um dia sem um bom resultado sequer podem voltar para casa. Acomodam-se junto à porta de alguma loja com suas tralhas à espera da próxima manhã.

Penso então nas pessoas que doam leite, café, pão... alimentos para que os Cuidadores de Francisco possam repetir, a cada terça-feira, a sua ronda compassiva junto aos irmãos carentes. Será que esses amigos do Sapiens têm ideia de que a "bênção" a que se refere o morador de rua manifesta-se pela ação de seus corações generosos? Será que percebem tão claramente, como nós no contato direto com os irmãos que sofrem fome e abandono, a importância tão grande de um simples pão ofertado com amor?

O périplo continua e chegamos a outra esquina. Dessa vez, um irmão se levanta e vem ao nosso encontro segurando seu instrumento de trabalho, um pequeno rodo para limpar para-brisas. É um jovem, não mais que 30 anos. "É sopa?", pergunta. Não, respondo. É café com leite, pão com manteiga e mortadela. Serve pra você? E ele responde alto e com sofreguidão: "Claro! Eu já estava indo procurar comida no lixo".

De novo a emoção balança a minha consciência. E de novo penso nos amigos que garantem o modestíssimo trabalho dos Cuidadores de Francisco. Será que percebem, assim tão claramente, que sua "bênção" pode ser a diferença na noite em que a um homem faminto só resta o lixo para se alimentar?

Diante das nuvens que escurecem ainda mais a noite fria sem estrelas, agradeço em silêncio a Deus pelos irmãos a quem podemos aliviar o sofrimento, pelos amigos que nos sustentam, pela bênção maior de sermos, cada um de nós, uma humilde "bênção", raio de sol a dissolver a treva da indiferença.

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Alma carente
16/06/2017

E no decorrer da ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco, na terça-feira passada, paramos junto a um grupo conhecido de usuários de crack. Na noite fria, eles são poucos, apenas três, aparentemente sóbrios naquela ocasião. Elinaldo chama a minha atenção. É um homem maduro, talvez em torno dos 50 anos de idade. Traja apenas uma bermuda. Nada mais possui. Seu olhar é triste e evita encarar-me. Então me aproximo e pergunto sobre o que mais ele precisa. Para minha surpresa, o homem, seminu, não me pede uma roupa ou mais comida. Finalmente, foca diretamente os meus olhos e diz: "Uma oração. Faça uma oração por mim".

Juntos, assistentes e assistidos, oramos a mais simples e mais profunda das orações cristãs, o "Pai Nosso" ensinado por Jesus. Elinaldo, discretamente, chora. Acaricio-o e o estimulo a não desistir. A emoção sobe, as verdades se manifestam. O vício devastou seu casamento e sua família. Seu sonho é reconstruí-la e de novo abraçar os filhos que não esquece. Mas são tantos os obstáculos, o vício o acorrentou. Tenta sair e não consegue. E porque não consegue livrar-se da droga, segue sozinho, longe da família que não consegue suportá-lo.

Como ajudá-lo? O que fazer? Não dispomos dos meios materiais necessários para resgatá-lo de pronto de seu mundo de sombra. Sabemos os nossos limites. O amor, no entanto, não promete milagres, embora realize-os todos os dias. O amor assegura presença e compaixão, indispensáveis às travessias dos vales. Que ninguém despreze o valor de uma escuta, de um abraço, de uma palavra que surge do fundo do coração. São sementes que frutificam no tempo certo. São esteios que não nos deixam desabar.

Elinaldo, esse tão pouco que lhe ofertamos agora é o melhor de nós nessa circunstância que não podemos alterar. Mas acima de nós está Deus e os prodígios que não cessam de se manifestar através da boa vontade dos homens. Não desista, por favor.

Gratidão a todos os amigos do Sapiens que, com doações e participação, garantem a continuidade das rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco.

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Um grito na sombra
01/06/2017

A chuva dera um tempo, mas a noite prosseguia úmida e fria. Já estávamos encerrando a nossa assistência ao grupo de irmãos carentes quando Paulo César aproximou-se de mim e passou a olhar-me com um olhar sofrido, mas terno. Perguntei se estava tudo bem e ele respondeu: "Agora está". Então olhei-o com carinho e ele perdeu a inibição. Avançou, abraçou-me forte e demoradamente. Parecia não querer interromper aquele momento.

Começamos a conversar e ele falou-me de sua vida na rua, de sua experiência na prisão e de suas culpas e transtornos. "Ouço vozes que me levam a fazer o que não devo, não consigo me livrar delas", disse-me, para explicar seu suplício. Perdeu o emprego porque não conseguiu conter o ímpeto de cometer um furto. Perdeu a mulher porque não conseguiu entendê-la nem ser entendido. Chutou a mãe em um momento de raiva, foi denunciado e preso por causa disso. A consciência diz que está errado, quer pedir perdão e não consegue.

Aconselho-o a buscar auxílio religioso e ele me revela que já foi catequista da Igreja Católica. Aconselho-o a buscar auxílio psicológico em um centro de saúde e ele responde que já esteve internado em hospital psiquiátrico. Sempre volta ao ponto zero. Peço-lhe para não desistir. Tem apenas 26 anos e o tempo está de seu lado. Paulo César olha-me descrente.

O que fazer? Como ajudar? Olho-o com ternura e digo que o compreendo. Paulo César volta a abraçar-me forte e demoradamente. Sinto agora a criança em busca de colo. Abraço-o forte e demoradamente. Em silêncio, oro por ele.

Quantos Paulo César existem nas ruas? Incontáveis. Temos encontrado alguns nas rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco. São irmãos que não suportaram a dor e perderam-se nas sombras do inconsciente como último recurso para fugir às vicissitudes e ao abandono. São crianças feridas, impossibilitadas de crescer pelas marcas da vida. Temos um débito, um débito social imenso para com elas.

Nós, cuidadores, podemos fazer muito pouco diante dessa situação, mas o que podemos, fazemos com o coração. Como aos demais carentes das ruas, oferecemos a esses companheiros especiais presença, escuta, coração e carinho. Aceitação. O alimento, a roupa e o curativo complementam nosso encontro fraterno. Também com eles aprendemos bastante.

Gratidão a Deus e aos amigos do Sapiens que, com doação e participação, garantem a continuidade de nosso trabalho singelo. Estamos em plena Campanha do Agasalho e você pode participar com a doação de lençóis, cobertores, camisetas, bermudas sandálias (novos e usados).

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Tão simples! E era o amor.
19/05/2017

Na terça-feira passada, encerrada a assistência a um dos grupos de moradores de rua visitados semanalmente pelos Cuidadores de Francisco, Roberto aproximou-se de nós e nos apresentou um amigo de vestes esfarrapadas e uma bengala que o ajudava a locomover-se. Era um deficiente físico.

Roberto, que também vestia uma bermuda surrada e uma camiseta desbotada, pediu-nos pão e café para o seu amigo. Respondemos que já havia se esgotado a cota do grupo, precisávamos agora ir ao encontro de outro núcleo de irmãos carentes. Sem protestar, resignadamente, o morador de rua, que ainda não havia consumido o seu lanche, entregou o seu sanduíche para o companheiro deficiente.

Neste momento, todas as luzes da consciência acenderam e, quebrando a regra, reabri o baú e doei sanduíche e café para Roberto. Pedi-lhe que nos desculpasse, com um abraço carinhoso e uma palavra de incentivo ao seu gesto fraternal. Nossos corações se confraternizaram.

Parece corriqueiro que alguém repasse a outro um simples sanduíche. Aparentemente é uma renúncia que não exige esforço. Mas, neste caso, estamos falando de irmãos carentes que, muito frequentemente, estão com fome e nos encontram após as 22h apenas para aliviá-la com um lanche modesto. Não, não era um gesto solidário qualquer. O amor estava falando - mais uma vez! - e nos revelando o seu poder de perfumar a vida e mudar o mundo.

Gratidão a Deus e a todos os amigos do Sapiens que, com o seu amor, suas doações e sua participação, garantem a regularidade das rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco.


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Chuva, amor e...festa!
04/05/2017

CHUVA, AMOR E... FESTA!

Que presente você gostaria de ganhar no dia de seu aniversário? Diante dessa pergunta, quase sempre pensamos em coisas. Mas é possível também optar pela alegria em sua forma mais refinada: a alegria de promover a alegria dos outros, de fazer o bem. Nós, dos Cuidadores de Francisco, estamos felizes porque a nossa ronda compassiva desta terça-feira, mesmo sob um temporal pesado,  provou que isso é possível e tornou a nossa noite - que nunca é rotineira, tem sempre algo a ensinar - em um momento especial para todos nós, cuidadores e assistidos.

O amigo do Sapiens Júlio Bezerra decidiu comemorar seu aniversário com os irmãos carentes das ruas. Patrocinou um lanche diferente e fez a alegria de adultos e crianças que costumamos visitar na calada da noite. Em vez de dois ou três veículos, dessa vez tivemos uma pequena caravana de carros acompanhando-nos na rota fraterna e ainda novos amigos incorporados ao trabalho singelo e marcante de confraternizar com os companheiros "invisíveis" das calçadas. E, é claro, isso fez a diferença quando a chuva ficou mais forte e, em vários grupos, encontramos irmãos carentes encharcados, tentando dormir encolhidos junto a portas e confluências de paredes. Como sempre lembramos, a presença, a escuta paciente, a aceitação e o coração amoroso são as ofertas mais valiosas que podemos fazer a esses companheiros.

Disse Jesus: "Quando derdes uma festa, convidai os pobres, os estropiados... e sereis ditosos por não terem eles meios de vo-lo retribuir". O mestre já sabia que o amor é, em si, a maior recompensa.

Então, o pontapé inicial de outro tipo de "jogo" compassivo foi dado! Podemos ter muitas outras festas de aniversário nas noites dos Cuidadores de Francisco. Que venham.

A terça-feira festiva nos deu motivo para inserir outras comemorações, aproveitando as velinhas de Júlio: nesta sexta-feira, 5 de maio, os Cuidadores completam dois anos de atividade junto à população de rua. Este mês, o nosso Sapiens chegará aos 16 anos de existência. E, ainda em maio, o nosso site Planeta Jota (www.planetajota.jor.br) completa 22 anos de atividade ininterrupta na Internet. É muita alegria frutificada do amor... o maior presente que podemos dar e receber.

Gratidão a Deus e aos amigos do Sapiens que, com doações e participação, garantem a continuidade da ação dos Cuidadores de Francisco!

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Pobre e íntegro
12/04/2017

As circunstâncias levaram Eduardo para as ruas, para a sobrevivência por meio de biscates, para a cama dura das calçadas todas as noites. Eduardo tem pouco dinheiro - ou nenhum. É pobre e, pela vida que leva, carente das coisas que constituem comodidades básicas de alguém que tem salário, casa e família. Mas, visto de outro ângulo - menos materialista e imediatista -, podemos dizer que Eduardo é rico. E esse outro olhar nos foi facilitado por uma simples doação feita a ele, dias atrás, durante a ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco.

Nesta terça-feira, quando o encontramos outra vez na calçada, o morador de rua apressou-se em avisar a Luís Montanares, o voluntário dos Cuidadores que o havia presenteado com uma carteira, que dentro do objeto havia uma pequena importância em reais. "A carteira está aqui. E o dinheiro também", disse com naturalidade. Depois, educadamente, abriu mão de um kit de higiene que lhe oferecemos porque já tinha um em sua mochila. Para ele, era melhor que guardássemos o kit para alguém que estivesse realmente necessitado daquele item.

Eduardo fez o que devia ser feito. Eduardo parece um homem honesto e justo. Sua atitude é a que todos devem ter em situações assemelhadas, mas, em um tempo em que o individualismo e a ganância transformam a esperteza e a desonestidade em algo aceitável, chega a surpreender que alguém tão pobre e tão carente possa nos dizer que não é o dinheiro que importa. Há valores que caracterizam o brilho da condição humana e podem tornar a humanidade uma experiência, de fato, luminosa e gratificante.

O que faríamos no lugar de Eduardo? Não se abale com a pergunta. Cabe a dúvida, sim. Nas circunstâncias em que a vida nos coloca - na abundaância ou na miséria - sempre estamos sendo testados por um objeto ou vantagem que nos chega às mãos contendo algo que não nos pertence.

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Uma lágrima de alegria
29/03/2017

Os sorrisos e as lágrimas são parceiros permanentes de nossas rondas compassivas junto aos irmãos carentes das ruas. Nós, os Cuidadores de Francisco, lidamos com eles todas as terças feiras em situações que, geralmente, acrescentam aprendizados às nossas vidas. Felizmente, há muito mais sorrisos do que lágrimas. Mas as lágrimas, quando aparecem, nem sempre anunciam tristeza ou indignação, algo comum e previsível na vida de irmãos marginalizados, aos quais faltam o básico para uma vida digna.

Sorrisos se exibem em nossas faces, pela alegria de encontrarmos e sermos acolhidos pelos irmãos que sofrem, e nas dos companheiros carentes, que assim nos ensinam a alegrarmo-nos com o que parece pouco - por exemplo, com as doações doações materiais que levamos junto com a nossa presença - mas que é recebido como dádiva de Deus na calada da noite. Lágrimas de pesar não são raras, rolando dos olhos deles e dos nossos. Já as lágrimas de alegria são menos frequentes, mas, quando surgem, vem com uma força e significado que a tudo transcendem.

Na noite de ontem, lágrimas raríssimas escorreram na face de uma mulher a quem assistimos com um abraço, uma palavra amiga e uma simples doação de roupa usada numa fila onde havia muitas outras mulheres, ávidas para receber alguma coisa. Quando a fila se desfez e nós já nos preparávamos para seguir em direção a outros grupos de moradores de rua, eis que a mulher retorna, toca em meu ombro, e pede minha atenção. "Obrigado! Foi perfeito para mim. Muito obrigado", diz com fala mansa, recheada de emoção, e um sorriso tímido. Respondo com outro sorriso. "Que bom!", digo, sem saber o que ela recebera minutos antes. "Obrigado. Deus abençoe a vocês", diz agora a mulher, com palavras que seguem o ritmo das lágrimas espontâneas rolando em seu rosto.

O que fizemos de especial? Não consigo saber. Mas ela sabe, seu coração sabe.

Não vamos às ruas em busca de reconhecimento ou agradecimento. Fazer o bem com essa intenção, não passaria de simples troca, uma transação. Mas é fato que um gesto assim, de fato raro e especial, mexe com os nossos corações e nos conduzem a reflexões sobre a condição humana e a excelência da gratidão. A mulher da noite natalense nos conduz ao leproso grato, curado por Jesus. Entre 10 beneficiados, ele fora o único a retornar e expressar sua gratidão ao mestre. Talvez tenha sido o único realmente curado, uma alma renovada e leve que descobriu a alegria de agradecer. Só os gratos são felizes.

*  *  *

Nossa profunda gratidão a Deus e a todos os amigos do Sapiens que, com doações e participação, nos permitem levar adiante as rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco. Presença, escuta, paciência, abraço, sorriso, lágrima... Eis o tesouro gratuito do coração aos quais juntamos as modestas - e valiosas! - contribuições em alimentos, remédios, roupas e calçados de nossos amigos. Deus abençoe os nossos benefeitores.

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Um homem e duas pedras
17/03/2017

UM HOMEM E DUAS PEDRAS

Numa calçada do centro da cidade, o homem sexagenário está sentado em uma cadeira enquanto seus companheiros se acomodam sobre papelões. Está bem vestido, com bermuda e camiseta novas e limpas. Junto aos seus pés, uma garrafa de cachaça. Não parece ser um morador de rua. E não é. Está ali à procura de quem lhe abasteça. R., funcionário público aposentado, separado, pai de filhos adultos, é viciado em crack. A cada dia consome duas pedras desse mortal subproduto da cocaína.

Na penumbra da noite, R. parece tranquilo. Na verdade, está triste e sem ânimo. Na terça-feira passada, tão logo chegamos para mais um momento fraterno dos Cuidadores de Francisco, seus olhos encontraram os meus e ele pediu que eu me aproximasse. Então, com voz baixa, humilde, perguntou: "Vocês não poderiam ajudar-me? Sou viciado, preciso de tratamento".

Não é fácil quando acontecem cenas como essas em nossas rondas compassivas. Por enquanto, não temos como auxiliar diretamente os companheiros nessa condição. Diante de um pedido como o de R,. costumamos indicar grupos religiosos que trabalham na recuperação de dependentes químicos. E foi o que fizemos mais uma vez.

Recomendamos ao homem a Cristolândia, ali mesmo no centro da cidade. Mas ele nos informou que já esteve lá e acabou sendo desligado da comunidade. Ensaiou queixas, mas depois reconheceu: não cumpriu a disciplina necessária para seguir no tratamento. Então indicamos os Narcóticos Anônimos, cujo método de tratamento, tem se mostrado eficaz para tanta gente. E o R. nos disse que já frequenta o N.A., mas não consegue resolver o seu problema. Já morou na rua, voltou para casa. Acha que em breve estará definitivamente vivendo nas ruas. Por que? Não consegue ter paz em sua casa, cercada continuamente por traficantes a lhe cobrarem dívidas.

Fatos assim nos emocionam, tocam fundo o coração. Mas é preciso encará-los com serenidade e com a mesma aceitação que procuramos aplicar às nossas vidas. Servir sob a inspiração de Francisco - e de Jesus - não significa cultivar a soberba de que tudo poderemos, até remover a lei de causa e efeito presente em todos os eventos da vida. Queremos estar juntos ao irmão que sofre e ajudá-lo sempre que possível, mas temos consciência de nossos limites e das leis que regem escolhas e ações.

Em qualquer situação, contudo, sempre poderemos oferecer aquilo que temos de mais importante para repartir com os irmãos: o amor, a dádiva maior, expressão da gratuidade divina em que a vida se estrutura, se sustenta e se transforma. Sem isso, nenhuma solução duradoura é possível.

Naquela noite, depois de uma conversa paciente e do lanche servido, abraçamos R. com carinho e sem reserva. Nada mais precioso poderíamos fazer naquele momento e naquela circunstância.


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Esqueceram de mim
10/03/2017

A ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco da última terça-feira foi realizada sob muita chuva. E em momentos como esse temos uma ideia ainda mais clara do sofrimento dos irmãos que moram nas ruas. As calçadas ficam molhadas, faz frio, o espaço disponível diminui e, não raro, é alvo de disputas. A ajuda que vem de grupos solidários também se reduz e é comum, nessas ocasiões, depararmos com irmãos famintos para quem o nosso lanche modesto vira primeira refeição do dia. Ainda assim, não faltam corações generosos entre os próprios carentes, gente como Zenildo, que cedeu seu lugar protegido para um casal sem teto e foi deitar-se na calçada úmida.

Mas na noite chuvosa dos Cuidadores foi um animal, e não humano, que acabou se destacando por seu drama e sofrimento. Os animais são companheiros inseparáveis de muitos irmãos das ruas, por motivos já conhecidos: para alguns, costumam ser para a única possibilidade de estabelecer um laço efetivo numa sociedade indiferente; para outros, a possibilidade de atrair a atenção de olhos vendados ante a miséria humana. Os animais também chamam a nossa atenção  e despertam o carinho dos que participam de nossas rondas, aí incluídas as crianças que nos acompanham, sob a inspiração de Francisco, o coração amoroso que há 800 anos conseguia respeitá-los e amá-los como criaturas de Deus e - por que não? - irmãos nossos. Em geral os encontramos sempre dóceis e alegres.

Na terça passada, no entanto, Kely, a cachorrinha que já mereceu uma minicrônica neste espaço, estava triste, arisca e solitária numa rua  do Tirol. O grupo de mendigos que a acolhia não estava no local e ela parecia estar com medo. Procurava algo (talvez seus antigos protetores), hesitava em se aproximar da comida servida pelo companheiro Astrogildo. Magra, seu caminhar perdera a firmeza. Estava sem a coleira que lhe fora presenteada por nosso grupo. Quando, enfim, cedeu ao carinho dos Cuidadores, comeu como um leão.

O que teria acontecido a Kely? Teria sido simplesmente abandonada? O que aconteceu aos seus protetores? É difícil e improdutivo julgar qualquer pessoa e, sobretudo, irmãos que, vivendo nas ruas, muitas vezes sobrevivem disputando migalhas na linha dos animais.

Como acontece quando deparamos com um sofrimento humano maior do que a nossa capacidade de ajuda, oferecemos a Kely o que temos de mais precioso: o amor, a atenção e a paciência ainda que por alguns minutos. A dor é inerente à vida, atinge a todos os seres sencientes. O amor e a compaixão também.

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Basta um raio de luz
24/02/2017

E já na primeira noite das rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco em 2017, grandes momentos de alegria, confraternização e, sobretudo, lições marcantes no contato com os irmãos carentes das ruas. Foi na terça-feira passada, 21/02. Quem escreve o nosso roteiro? Quem escreve o roteiro da vida de cada um e também o de grupos como o nosso, unidos pela intenção de manter acesa nos corações a chama do amor, rompendo preconceitos, o medo e a avareza?

À meia-noite desviamo-nos da rota costumeira e encontramos Vladimir. Dormia no chão, a roupa molhada, o corpo coberto de micoses, sentia frio. Jantara pão dormido, duro e seco. O que temos a oferecer? Àquela altura só café com leite e pão com manteiga, um velho cobertor, algumas roupas usadas. Vladimir alegra-se, dá graças a Deus, conta um pouco de sua história, sem se dar conta do presente sem preço que está nos dando.

Um dia já foi operário numa indústria pesqueira. A depressão, depois de uma crise familiar, arrastou-o para as drogas. A saúde debilitou-se, a cabeça se desestruturou. Veio a noite escura, mas, que surpreendente (quem escreve o nosso roteiro?!), um raio de luz permaneceu iluminando o fundo de seu coração. A tristeza não matou a fé. O delírio não sufocou a capacidade de doar-se nem de perceber o além da forma. Vladimir divide o pouco que tem com a filhinha de sete anos. E se alegra em Deus, cantando louvores ao estilo de sua fé. Às vezes afunda ou é empurrado para o fundo do poço pelas circunstâncias de um mundo indiferente. Chora e volta a cantar e a agradecer. Dias atrás, faminto, abriu sacos de lixo e fartou-se com restos de sopa. Agradeceu! Na noite em que o conhecemos, recebera pão duro para jantar. Agradeceu!

Seus olhos e os olhos dos Cuidadores de Francisco se encontram. Não há dúvida sobre a sinceridade da conversa. "Vladimir, conheço uma pessoa parecida com você". Seu olhar para nos meus olhos (aonde está o coração do mendigo agora?). "Essa pessoa viveu há 800 anos!". Uma lágrima escorre no lado esquerdo da face do irmão carente. Sim, aceito, diz ele. "Você já ouviu falar em Francisco de Assis?" Sim, aceito, repete. E nos abraçamos demoradamente porque não havia nada mais a dizer.

Antes de nos despedirmos, Kelly Rocha pede para que ele cante um de seus louvores. Uma voz potente ecoa no início da madrugada, o raio de luz oculto parece dissolver todo resquício de escuridão. Partimos gratificados pelo presente tão divino, uma lição tão imensa. Vladimir, sob as estrelas, na pureza dos gratos, certamente continuou pensando que fora ele o agraciado.

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O lixo, um homem e dois pães
08/12/2016

Na madrugada desta quarta-feira, encerramos a ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco com uma sobra de dois sanduíches. Por que não deixamos essa quantidade tão pequena de alimento com os irmãos do último grupo de moradores de rua que visitamos, se eles certamente não estavam saciados com o lanche que lhes servimos no chão da praça? Não sabemos, agimos por impulso. Na verdade, não sabíamos, pois, minutos depois, já no caminho de volta para o Sapiens, a vida nos explicou.

Na avenida larga, em frente à pizzaria de grife vimos que um jovem, com olhar triste, quase desesperado, ocupava-se em remexer um dos muitos sacos de lixo deixados junto à sarjeta. Descemos do carro e o diálogo se deu:

- Boa noite, amigo. Está procurando algum material reciclável?

- Não, senhor. Estou procurando comida. Estou com fome. Não comi nada hoje.

Servimos-lhe os sanduíches, o café com leite, água. Ele consumiu tudo com rapidez. Depois no pediu um lençol.

- Estou com frio, muito frio.

Ganhou uma colcha e uma camisa e, agradeceu, olhando em nossos olhos.

- Deus abençoe vocês!

Então saiu a passos largos para acomodar-se na calçada de uma loja.

Nas rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco temos encontrado a confirmação dessa verdade: nem sempre sabemos para onde vamos, não verdade nunca sabemos para onde vamos, mas Deus sabe, a vida sabe. Estamos em nosso caminho.

Nosso caminho, nas noites das terças e madrugadas das quartas, é abraçarmos, ouvirmos e nos alegrarmos com os irmãos que sofrem nas ruas e, conforme nossas possibilidades, oferecer-lhes o alívio do alimento, da roupa, do curativo...

Somos gratos a todos os amigos do Sapiens que, com doações e participação, garantem a continuidade desse trabalho singelo, em nome do amor.

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Presépios vivos
01/12/2016

Na ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco junto aos irmãos carentes das ruas, na última terça-feira, a extrema carência de uma mulher gestante nos chamou a atenção para uma situação cotidiana que não conseguimos enxergar. A mulher está prestes a dar à luz a sua criança e não tem ainda como vesti-la e aquecê-la. Ele atirou-se sobre nossos pacotes de roupas para doação e, ao final, estava feliz por ter encontrado pequenas camisetas, shorts e meias destinadas a crianças com mais de quatro anos. Sentimos que, para ela, o achado tinha grande importância, pois agora podia improvisar a proteção ao filho que vem aí.

Então, diante dessa cena, nos demos conta de que as ruas estão repletas de presépios vivos - e não apenas agora, período natalino, mas em todos os dias do ano. Em nossas rondas noturnas, encontramos casais jovens, alojados sobre calçadas, a mulher esperando um bebê. Aqui e ali um pedido de fraldas, um sapatinho, um agasalho infantil. É como se eles estivessem indo para Belém e as circunstâncias os tivessem obrigado a parar, na madrugada, em campo aberto, agora sem relva, manjedoura, pastores solidários e anjos barulhentos.

Outras vezes também encontramos famílias com filhos crescidos e até famílias em que todos são adultos, não raro unidas pela solidariedade a um irmão doente, sem forças para viver sozinho.

Essas cenas da rua evocam permanentemente o Natal, embora, na correria nem sempre as percebamos. Notá-las e nos interessarmos por elas e seus atores é um dos objetivos de nosso trabalho singelo junto aos irmãos carentes. Diante delas, tentamos ser pastores que acolhem esses traseuntes, oferecendo-lhes atenção, afeto e respeito e, na medida de nossas possiblilidades, algo que lhes possa aliviar a fome e a indigência.

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Corações feridos
17/11/2016

A assistência a um dos grupos de irmãos moradores de rua incluídos na ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco estava encerrada e nos preparávamos para ir ao encontro de outro grupo quando Júlio, um jovem a quem há pouco ofereceramos um lanche, segurou a mão de outro companheiro de sofrimento e gritou para nós: "Vamos fazer uma oração! Por que as pessoas esquecem de orar, de agradecer e pedir a Deus?". Formamos o círculo, com mãos entrelaçadas, e ele tentou iniciar a prece. Tentou, mas não conseguiu.

De súbito, as lágrimas rolaram em sua face e ele pôs-se a dizer que não queria estar nas ruas, mas fora fora forçado a sair de casa ao ser acusado pelo padrasto da autoria do furto de um telefone celular. Gritou sua inocência e, então, emocionado, faltaram-lhe palavras para a oração, afinal feita por um amigo ao lado. No grupo de indigentes vozes se levantaram para atestar sua honestidade e disposição para ajudar o próximo. Júlio é paisagista e pintor. Há pouco acolhera e cuidara de outro morador de rua, ex-presidiário, ferido. Por seu traço colaborativo, foi convidado a morar no quitinete que outros dois moradores de rua, trabalhadores autônomos, tentam alugar ali pertinho, no centro da cidade.

A estatística oficial indica que mais de um terço da população de rua no Brasil é constituída de pessoas que deixaram suas casas em meio a conflitos familiares. São o resultado de famílias destroçadas pela miséria, pela falta de educação, pela falta de valores éticos e, na maioria dos casos, pelos vícios - a bebida e a droga em primeiro lugar. Uma enorme parcela dos que largaram o lar ou dele foram expulsos são dependentes de álcool e drogas ilegais, mas não são poucos os casos como os de Júlio, em que o drama humano nasce da ausência de amor, diálogo e um mínimo de tolerância em famílias sofridas e desequilibradas.

Nós, dos Cuidadores de Francisco, podemos fazer pouco pelas vítimas dessa situação. Com certeza, a sociedade, se menos egoísta e excludente, faria mais e o governo, se mais eficiente e comprometido com as pessoas, poderia oferecer meios para encaminhar soluções. Mas, como Pedro e João diante do coxo à porta do templo de Jerusalém, conforme a narrativa de Atos dos Apóstolos ("Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho isso te dou"), fazemos o que está ao nosso alcance, de nosso jeito, cada vez que encontramos um Júlio nas ruas: abraçamos sem reserva, ouvimos sem pressa, sentimos o mais possível, falamos ao coração.

Na noite escura dos que dormem nas ruas, rejeitados de algum modo, sabemos que isso é o melhor que temos a ofertar. O lanche, a cesta básica, o lençol, a roupa e o calçado tem sua serventia. Mas o amor é a excelência.

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A água e o abraço
09/11/2016

Faltou água na ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco desta terça-feira e a consequência disso foi dramática. Já sabíamos que um copo d´água é, para os irmãos carentes das ruas, um item até mais importante do que comida. Muitos deles são rechaçados e ameaçados quando, com sede, buscam água potável em casas, bares, restaurantes e postos de gasolina devido à aparência miserável e o mau cheiro. Mas não sabiamos da extrema gravidade dessa carência.

Quando a nossa água ficou escassa para atender a todos, racionamos e um homem, que chegara atrasado, ficou sem a sua cota. Foi com tristeza que o vimos, revoltado, recolher água de uma poça junto à sarjeta e, antes de levar o copo à boca, sentar-se e chorar como uma criança. "Estou com sede", gritava. Reabrimos a mala do carro e o atendemos com a água de que tanto precisava.

Moradores de rua tem mais sede do que nós porque passam o dia expostos ao Sol, porque comem comidas insalubres e porque uma parcela deles consome bebidas alcoólicas e drogas. Seja qual o for o histórico da sede, no entanto, são humanos e merecem ser saciados. "Tenho sede", disse Jesus, no alto da cruz, revelando um detalhe cruel de sua agonia.

E o abraço? Bom, essa foi outra confirmação que tivemos na mesma noite. Sabemos o quanto os irmãos de rua são carentes de afeto e, especialmente, do afeto expresso sob a forma de toque, de abraço. Quem se dispõe a abraçá-los em sua indigência? Raríssimos. A regra é que as pessoas se afastem de sua presença, para não serem incomodadas pelo seu aspecto. Mas quando sentem que estão diante de alguém que os ama e respeita, a maioria desses irmãos abre corações e braços e se excede em demonstrações de carinho - e de carência! Abraçam forte, demorado. Olham no olho do interlocutor. Agradecem e agradecem.

Ontem, em um dos grupos, um caso desses chamou nossa atenção. Um jovem abraçou o nosso coordenador. Parecia embriagado, mas seu abraço longo e carinhoso revelou bem mais sobre seu coração, sobre sua alma: uma criança que, por alguns minutos, encontrara um colo e um carinho de pai.

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A noite em que fomos anjos
02/11/2016

A noite da terça-feira já terminara e a madrugada começava com algumas rajadas de ventos frios. Como sobras de mais uma ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco, junto aos irmãos carentes das ruas, tínhamos três sanduíches e um pouco de café. Mas, no caminho de volta para o Sapiens, deu-se um fato inusitado. Na calçada de uma borracharia percebemos a silhueta de um casal deitado, coberto com trapos. Aproximamo-nos e, antes que pudessemos perguntar se eles aceitavam o nosso lanche, a mulher, baixinha e esguia, abriu os olhos e exclamou: "Deus é grande! Eu estava pedindo a Ele que enviasse alguém com alguma comida". Seu olhar de gratidão parecia nos contemplar como a anjos, despachados pela divindade. Sua atitude nos tocou profundamente, ativando em nós mais fios luminosos de amor e compaixão.

Não podemos avaliar a fome daquela mulher e de seu esposo, um guardador de carros que dormia ao lado de um balde e uma esponja, seus instrumentos de trabalho, certamente depois de um dia mal sucedido em sua fonte de renda. Mas, pela enésima vez, percebemos o valor de um simples pedaço de pão ofertado com afeto quando se está faminto. E, de novo, tivemos consciência da importância de um trabalho tão singelo como o dos Cuidadores de Francisco.

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Uma pizza. Para nós.
19/10/2016

Tornou-se uma rotina retornarmos de cada ronda com histórias que tocam o coração e nos ajudam a vencer nossas próprias limitações. Ontem não foi diferente. Outra vez aconteceu algo inusitado.

Somos nós que levamos um pouco de alimento para os irmãos visitados. Mas, em um dos grupos, um morador de rua que acabara de ganhar uma pizza de um transeunte insistiu para dividir conosco a comida saborosa. Nossas crianças adoraram. A pizza, que chegou faltando um pedaço, pôde ser saboreado por quatro moradores de rua e mais um casal necessitado que se aproximara para nos pedir uma cesta básica. Uma divisão milagrosa.

Compartilhar o pouco que têm é um traço amoroso que presenciamos, praticamente, em todos os grupos de moradores de rua. Parece que o pobre tem mais disposição para dividir suas migalhas do que aqueles que, tendo mais que o necessário, viciaram-se em acumular. Não é que os pobres sejam iluminados. Entre eles também há egoísmo, ambição e avareza, mas a dor comum parece refinar-lhes a sensibilidade diante do sofrimento do próximo.

Somos gratos a Deus e a todos os amigos do Sapiens que, com doações e participação, garantem as nossas rondas compassivas de todas as terças-feiras. Os lanches, as cestas básicas, as roupas, as sandálias, os lençóis, enfim, toda contribuição material leva um pouco de alento aos irmãos das ruas, mas é a presença de gente, a nossa presença com atenção, escuta e carinho a maior contribuição que podemos oferecer a cada um deles.

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Uma lágrima na noite
12/10/2016

Ao chegarmos ontem a um dos grupos de irmãos moradores de rua que visitamos todas as semanas, nós, os Cuidadores de Francisco, nos defrontamos com um cenário de tristeza. Não havia a saudação ruidosa de sempre e Alex, um dos companheiros a quem temos dado uma atenção especial, em razão de sua fragilidade (ele teve tuberculose recentemente e foi tratado sobre a calçada fria), ouvia música brega no radinho, inconsolável. Kelly, a cachorrinha do grupo, fora roubada. Ele não tinha mais a sua companheira fiel, que dormia ao seu lado. O grupo estava de luto e por alguns minutos Alex falou do carinho que ele e seus companheiros dedicavam ao animal, que também se afeiçoara a nós e às nossas crianças. A certa altura, uma lágrima curta rolou do olho do morador de rua.

Certamente, cada um de nós - que tem família, casa e comida - entende a dor de Alex. Quem um dia não teve um animalzinho de estimação e sofreu, chorou, quando ele se foi? Mas no caso de Alex essa dor é maior e mais significativa. Moradores de rua costumam ser pessoas invisíveis para o resto da população. Quase sempre são vistos através das lentes do preconceito e até são destratados. Falta-lhes a atenção, o toque, o carinho tão necessário a cada homem ou mulher. E é aí que o animal, que não entende de preconceito e vive plenamente em sua condição, entra na vida desses irmãos para substituir o afeto humano.

O cachorro, o gato suprem essa carência de atenção, mas também estimulam a luz do amor que há em cada morador de rua, às vezes obscurecida pela falta de autoestima ou revolta. É preciso conviver, estabelecer o vínculo fraternal com esses irmãos para, enfim, perceber, sob o tom cinza de uma vida carente e tediosa, o brilho do amor escondido no fundo do coração. Vê-los nessa relação cuidadosa e gentil com criaturas tão indefesas pode mexer com a nossa indiferença e salvar-nos da cela de nossa autoimagem, esculpida em egoísmo, preconceito e avareza.

Nessa noite fomos solidários com Alex e seus companheiros. Nossa presença e carinho, nosso alimento e nossas doações de roupas certamente foram pouco para dar-lhe um alento. Mas uma coisa é certa, Alex: nós vamos continuar visitando os irmãos carentes das ruas e, sob a inspiração de Francisco, vamos continuar azeitando a nossa amizade com vocês, ampliando essas trocas que também nos fortalecem e nos animam.

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Encontro com Francisco
05/10/2016

Francisco, irmão Francisco, pai Francisco! Neste dia que te dedicaram os cristãos católicos, nesta noite de teu dia, como em toda terça-feira, saímos às ruas em teu nome - nós, os Cuidadores de Francisco.

Ah! Francisco, irmão Francisco, pai Francisco! Em nossa ronda noturna te procuramos com os olhos e com o coração. Queríamos te abraçar, agradecer. Sabíamos que, como sempre, poderíamos te achar entre os pobres, entre os que vivem, dormem e sofrem nas ruas. E fomos lá, em teu nome, mais uma vez para cuidarmos deles.

Ah! Francisco, irmão Francisco, pai Francisco! Que belo encontro! Tu estavas deitado, vestindo trapos, feridas expostas na calçada da avenida. Sim, sabíamos que estavas ali. Na face do irmão indigente te vimos, como vistes a Jesus na face do leproso.E cuidamos de ti, com toda a atenção, amor e carinho.

Se não fizemos mais é porque não podemos ou não sabemos. Mas tu sabes, Francisco, irmão Francisco, pai Francisco, que queremos te imitar, queremos seguir contigo.

Cuidadores de Francisco é o que somos. Inspiração diária de nossa devoção, deixa-nos te ver hoje e sempre no rosto e na necessidade dos irmãos aos quais dedicastes a tua vida.

Aos amigos do Sapiens, que mantem com doações e participação, nossa doce parceria com o "louco" de Assis, nossa profunda gratidão, nossa alegria sem limites.

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O milagre do pão e outos milagres
14/09/2016

O que significa para você um simples sanduíche e um copo de café com leite na madrugada? Certamente, tão pouco. Ontem, Henrique, um morador de rua assistido em nossas rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco, nos fez ver mais claramente o valor de um pão com mortadela e café com leite para quem tem fome e não pode ter acesso ao alimento.

Henrique dormia, com outros moradores de rua, sobre a calçada de uma padaria. Todos despertaram com a chegada de nossa pequena caravana. Vimos como alguns tinham dificuldade para ficar sentados, tal o sono profundo em que se encontravam. E, então, constrangidos por termos tirado o grupo de seu sossego, apresentamos nossas desculpas. Para nossa surpresa, do meio dos irmãos carentes, a voz de Henrique ecoou, firme e forte, dissolvendo a nossa culpa: "Vocês não nos perturbaram. Vocês trouxeram o pão para mim. Estava com a minha barriga roncando".

Você sabe o que significa para nós essas palavras sinceras de Henrique? A alegria de saber que o nosso trabalho singelo produz resultados em corpos e corações.

Mas, como sempre dizemos, nem o alimento e nem os lençóis e roupas que distribuímos constituem a parte mais importante de nossa confraternização com os irmãos das ruas. O principal é a presença, a escuta, o abraço, o carinho e a troca de conhecimentos (sim, como aprendemos muito com os irmãos das ruas!). Ontem mesmo, em outro grupo que dormia em frente a um supermercado, tivemos a confirmação disso.

Elisa, a única mulher daquele grupo - e com quem estivéramos em outro ponto da cidade - estava embriagada, mas não violenta, como aconteceu em outras oportunidades, nas quais fomos destratados por ela. Elisa, embriagada, abraçou-nos e espontaneamente pediu desculpas pelas cenas grosseiras do passado. E ao saber que não demos importância às suas palavras áridas, mas ao seu lindo sorriso, passou a nos contar a sua vida. Órfã de pai e mãe, cresceu nas ruas. Depois praticou delitos e virou prisioneira. Após cumprir pena, voltou para ruas e, segundo disse, vive hoje o seu pior momento. Deprimida, não vê saída para si mesma e pede-nos que ore por ela.

- Vamos orar, sim, Elisa, mas você mesma pode e deve orar também, conversar diretamente com Deus.

Elisa, chorando, nos diz:

- Eu não sou digna de estar diante de Deus. Estraguei as oportunidades que ele me deu. Pelos meus pecados..

Abraçamos a querida irmã e aproveitamos para sussurar aos seu ouvido:

- Elisa, ninguém é indigno diante de Deus. Ninguém! Apresente-se como você é, converse com ele e ele responderá em seu coração, apontando o rumo a seguir.

E quando somos nós que precisamos? O amor dos irmãos das ruas nos chegam como bênção. Também ontem, em outro grupo com o qual nos confraternizamos toda terça-feira, um irmão carente percebeu que um de nossos cuidadores está doente, passando por um momento delicado. Discretamente, ele indaga ao companheiro sobre sua enfermidade e, abraçando-o, faz a sua oferta:

- Eu gosto muito de você. Todos nós gostamos muito de você - diz o irmão carente.

Noite serena de milagres. Milagres do amor.

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Quem é quem na rua
17/08/2016

Na ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco, na noite de ontem, encontramos Nilson e sua mulher dormindo no chão da praça. Estavam sem cobertor ou qualquer agasalho. Quem são eles? Drogados? Alcoolátras? Marginais? Pessoas envolvidas em conflitos familiares? Não. Nenhuma dessas opções. Nilson e sua companheira são desempregados. Ele, pintor de automóvel, perdeu o emprego e, depois de meses de atraso no pagamento do aluguel, teve que abrir mão de seu "quartinho", deixando geladeira, fogão e móveis como pagamento.

O senso comum costuma achar que todos os irmãos carentes das ruas são marginais ou viciados. Engano e preconceito! Em 2008 o Ministério do Desenvolvimento Social realizou uma pesquisa nacional, que revelou: a população de rua é constituída de 29,8% de pessoas que perderam o emprego, 29,1% de pessoas envolvidas em conflitos familiares e 35,5% de vítimas de alcoolismo e drogas. O estudo também mostrou que 82% da população de rua é constituída por homens e entre estes 67% são negros. A maioria dessas pessoas (70%!) é de trabalhadores que exercem algum tipo de atividade remunerada. Outra pesquisa, realizada em 2010, em 75 cidades com mais de 300 mil habitantes, revelou um dado cruel: Cerca de 24 mil crianças e adolescentes viviam nas ruas das cidades pesquisadas.

A solução dos problemas da população de rua passa pela ação governamental, o respeito ao direitos de cidadão desses irmãos carentes e à eliminação do preconceito e da indiferençada sociedade, que em sua maioria acredita que os problemas sociais podem ser resolvidos com discriminação, isolamento e até a eliminação dos pobres.

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"Nada querer, tudo ter"
10/08/2016

Em nossa ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco, na noite de ontem, reencontramos Alex em ótimos condições. Há meses, vítima de tuberculose, ele teve de submeter-se ao tratamento da doença nas condições em que vive: vivendo nas ruas, dormindo na calçada de uma distribuidora de automóveis, quase sempre sem cobertor. Sempre que o encontravámos ela estava deitado, sem ânimo para ficar de pé, tossindo, às vezes febril, mas invariavelmente resignado, com fé em Deus e no tratamento prescrito pelo médico. Ontem encontramos Alex de pé, bem disposto, alegre, vestido dignamente e tendo à mão um balde, seu instrumento de trabalho como lavador de carros.

Ficamos felizes ao constatar a sua recuperação. Mas Alex iria nos dar mais duas lições: dessa vez ele não aceitou o nosso lanche porque horas antes havia sido contemplado com uma refeição fornecida por outro de apoio a moradores de rua. "Não vamos estragar. Passe o meu lanche para outro irmão que precisa", disse-nos com espontaneidade. Depois, com uma ternura que surpreende a quem imagina que a brutalidade de sua comdição social inevitavelmente o tornaria um bruto, dedica-se a acariciar Kelly, a cachorrinha mascote do grupo, e seu filhote, como quem cuida de seus próprios filhos.

Com Alex tivemos a reafirmação de uma característica dos irmãos que sofrem nas ruas. Apesar das exceções, a solidariedade e a ajuda mútua são traços que iluminam sua convivência e alivia suas dores. Quase sempre estão dispostos a dividir o pouco, quase nada, que têm.

Um mundo injusto, dominado pelo egoísmo, segrega os homens entre ricos e pobres, mas é alvissareiro perceber que no sofrimento e na pobreza - a condição de bilhões de homens atualmente - podemos perceber mais facilmente o valor da fraternidade do que na abundância, quando não raro nos perdemos na avareza.

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Não temas, o amor dissolve o medo
03/08/2016

Na noite de ontem, os Cuidadores de Francisco sairam às ruas em mais uma ronda compassiva junto aos irmãos carentes, mas dessa vez ocorreu um fato singular: ouvimos de vários moradores de rua a queixa de que, devido aos atos de violência registrados em Natal, nos últimos dias muitos grupos solidários, que ajudam esses irmãos com sopas e lanches, deixaram de comparecer e isso tem feito a diferença para pior na vida de muitos.

Entendemos que, certamente, o medo afastou esses companheiros solidários de suas tarefas fraternas. E, embora compreendamos a nossa condição humana - que torna fatos como esses frequentes em nossa vida -, lamentamos quando isso acontece conosco ou com o outro.

Ao realizar nossa ronda de ontem, encontramos as ruas tranquilas e os irmãos carentes em seus lugares costumeiros, recebendo-nos com alegria, embora um pouco mais famintos. Nenhuma ameaça, nenhum ato violento.

Vivemos num mundo dominado por valores materialistas, guiado o tempo todo pelo egoísmo e todos os sentimentos dele derivados. E, num contexto assim, é natural que o resultado de todos os desvios seja violência e mais violência. Apesar disso, convém que não nos deixemos vencer pelo medo, pois esse é o ingrediente básico da própria violência e, certamente, ajudará a complicar ainda mais a situação. Ninguém agride sem estar com medo, sem sentir-se, de algum modo, ameaçado. Mesmo quando, na superfície, apenas aflora a força, a ganância, a indiferença, a insensibilidade.

Uma das frases mais repetidas por Jesus, segundo os registros do Evangelho, era "não temas". E o amor, só o amor, é o antídoto eficaz para o medo. O apóstolo João chega a identificar, apropriadamente, Deus com o amor. "Deus é amor e onde há amor, não há medo", disse ele.

O medo, na dose certa, é cautela. Quando assume o controle de nossas vidas, é patologia - o sinal mais evidente da carência de amor dentro de nós.

Que nós e todos os grupos solidários mantenham acesas as suas chamas.

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Dores e alegrias da vida nas ruas
13/07/2016

Como você passou a noite de ontem, terça-feira? Qualquer que seja a sua resposta, considere o que encontramos nessas terça-feira chuvosa e fria, em Natal, durante mais uma ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco: irmãos carentes amontoados em recuos de edifícios, esforçando-se para sofrerem menos com a queda de temperatura, muitos sem um simples lençol para se cobrir.

É dolorosa a rotina dos pobres que moram nas ruas, mas, apesar das adversidades, eles sabem celebrar a vida, driblando a tristeza. São muitos os motivos de congraçamento - do papo sobre as atividades do dia ao consumo de cachaça, também um recurso para esquecer a fome ou diminuir o frio, ou mesmo o zelo coletivo pelos animais que se juntam aos grupos. Na pobreza e na simplicidade, há um vasto espaço para a alegria.

E foi assim que, na terça, encontramos homens seminus deitados no chão, porém, alegres com a chegada de oito cachorrinhos, filhos da cadela Kelly, tratada como uma rainha pelo pequeno grupo. Ela estava tranquila junto aos seus velhos amigos e, em nenhum momento, mostrou-se assustada com a nossa chegada. De Astrogildo, um dos Cuidadores de Francisco, ganhou a sua ração semanal e presentes extras. Das crianças que nos acompanham na assistência os irmãos carentes, ganhou olhares de admiração e toques carinhosos.

A singeleza de momentos como esse fortalecem os nossos laços com os irmãos de rua - e essa é a nossa grande meta. O alimento, o remédio, a roupa e o cobertor são importantes, sim, mas é a nossa presença, a atenção, o abraço e a partilha de pedaços de vidas desses companheiros que justificam o trabalho modesto dos Cuidadores de Francisco e nos tornam a todos abençoados, sob a luz do amor e da compaixão.

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Ao irmão Francisco, com carinho
06/07/2016

Os Cuidadores de Francisco sairam ao encontro dos irmãos carentes das ruas na noite de ontem, como acontece a cada terça-feira. Mas ontem não era uma terça qualquer. Em 5 de julho de 1182, nasceu em Assis, Itália, Giovanni di Pietro de Bernardone, aquele que iria marcar a história como Francisco, o santo da compaixão. Francisco é o nosso inspirador. É em seu nome que vamos ao encontro dos irmãos marginalizados para repartir um pouco daquilo que ele ofereceu aos irmãos leprosos e aos pobres de seu tempo: presença, atenção, escuta, carinho e um pouco de alimento e vestimenta.

"Francisco é uma luz que brilhou sobre o mundo", diria Dante Alighieri. Francisco é uma revolução no Cristianismo e na humanidade!

Ao buscar imitar Jesus em seu contato com as pessoas, ousou recordar-nos a dimensão humana do Cristo, aquela que age e muda o mundo pela presença incondicional do amor e da compaixão, da coragem e do despojamento.

Francisco é holístico. Vê o divino em cada ente da natureza. É capaz de reconhecer o Irmão Sol e a Irmã água, entender e conversar com o Irmão Lobo e toda a natureza. Vê Jesus na face do leproso e ama os pobres, seus irmãos.

Morto Francisco, vimos as estruturas da religião e do mundo dissolverem o seu trabalho e cooptarem muitos de seus seguidores. O santo do altar está longe do furacão representado pela passagem do jovem Giovanni pela Terra.

Mas não se matam ideais. Hoje, como ontem, Francisco inspira corações e anima obras de compaixão em todo o planeta. E nós, Cuidadores de Francisco, somos felizes por partilharmos, em nosso pobreza, da infinita luz de seu exemplo.

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Cuidadores de 4 patas
08/06/2016

Quando nós, os Cuidadores de Francisco, chegamos a um dos grupos de irmãos moradores de rua que visitamos semanalmente, "Kely", a cachorrinha mascote do grupo, repousava junto ao seu dono, que dormia profundamente. Ao longo dos meses, um laço de afeto foi se estabelecendo entre nós e a cadela, que agora conhece o barulho de nossos carros e logo se levanta à espera de seu pedaço de mortadela. "Kely" merece esse mimo. A cachorrinha não fala, mas nos ensina muitas coisas a cada visita, as principais delas compaixão, companheirismo e nenhuma ponta de preconceito.

"Kely" oferece aos irmãos bêbados, famintos e desencantados com a vida o amor que os homens, seus irmãos, costumam negar-lhes. Graças à sua amizade ingênua e despretensiosa, recebe em troca atenção e carinho. E nisso temos um prodígio. "Kelly", a cachorra, nos revela o que há lá no fundo do coração de irmãos que nos parecem embrutecidos pelo abandono e discriminação social: amor! Não há ninguém que, tocado pelo afeto compassivo, não expresse, em resposta, a essência amorosa dos seres, ocultada por nossas ilusões e desvios.

Noite simples e bela, de paz e aprendizado. Em resposta ao nosso afeto, à nossa escuta e ao nosso carinho, recebemos dos irmãos assistidos e da simpática "Kely" mais uma lição de vida.

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Olho no olho
02/06/2016

E se o irmão carente demonstrar desespero e descrença? Como ajudar? Na ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco, na noite de ontem, Breno, um dos moradores de rua que visitamos semanalmente, parecia mais agitado, revoltado. Sem que nada lhe fosse perguntado sobre o tema, o homem de 48 anos começou a dizer que não acredita na existência de Deus e, como argumento, apresentou as desventuras que o teriam transformado de militar e professor em mendigo e alcoólico. Uma história dolorosa que inclui a separação e perda de familiares - coisas que, na sua visão, Deus, se existisse, teria evitado.

Se Breno falava sobre fatos ou se era delírio, não sabemos. Mas ouví-lo por algum tempo, olhá-lo com ternura e demonstrar interesse em sua fala foi a ação que o coração nos aconselhou naquele momento. Nenhuma reprimenda, nenhuma tentativa de fazê-lo mudar suas opiniões. Afinal, como reagiríamos, se estivéssemos em seu lugar? O que nos garante que nos manteríamos serenos e apoiados em nossas crenças?

Deus - e acreditamos nele e o sentimos - desaparece de nosso horizonte toda vez que a dor não compreendida expulsa o amor e gera a bruma da revolta. É humano, é próprio do ego. E só o amor, a expressão máxima do divino, pode nos induzir à lucidez e ao ponto de equilíbrio.

No caso de Breno, a paciência em ouvir e entender seu desespero e descrença, pode não ter alterado suas convicções, mas deixou-o tranquilo e gentil. Para quem começou a conversa esbravejando contra Deus, encerrá-la com uma espontânea referência elogiosa a Jesus é uma singela demonstração de que o amor sempre nos surpreende com seus pequenos ou grandes prodígios.

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O amor mistura geral
19/05/2016

O que fazer se, durante a ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco junto aos irmãos moradores de rua, a gente encontra grupos de católicos, evangélicos, espíritas ou qualquer outro, religioso ou não, assistindo os companheiros carentes? A gente entra na roda, aprende com eles, ora com eles e, juntos, abraçamos os irmãos necessitados.

Pois foi isso mesmo o que aconteceu na noite de ontem, nesta semana em que excepcionalmente nosso périplo pela cidade foi transferido para a quarta-feira, devido ao evento festivo no Sapiens na terça. Encontramo-nos, sem aviso prévio,em dois pontos de nossa rota e foi muito bom para nós e - a julgar pelos sorrisos e expressões de alegria - também para os irmãos assistidos.

Por alguns minutos todos experimentamos como seria bom um mundo em que as diferenças entre ideias e crenças deixassem de ser relevantes e as diferentes escolas de fé trocassem a intenção de serem donas da verdade pela singeleza poderosa de apenas amar e servir, respeitando e compreendendo todas as línguas da diversidade.

Na noite em que saimos com a intenção de compartilhar com os irmãos das ruas um pouco de nossa alegria no Sapiens - nosso espaço plural que comemora 15 anos de atividade - tudo ficou maior e melhor com esse inusitado momento ecumênico. Nossa singela partilha de alimento e vestuário e, sobretudo, nossa doação de presença, escuta, carinho e abraço ganhou um significado mais amplo.

O amor mistura geral. O amor é vida. O amor é Deus. Nossa gratidão a todos os que tornam possível, com suas doações e participação, as humildes e luminosas rondas dos Cuidadores de Francisco!

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A esperança
11/05/2016

Perder os pais na infância é um desafio imenso para qualquer criança. Perder os pais e não ter familiares ou amigos para substituí-los, ainda que parcialmente, pode ser uma condenação ao fracasso e ao sofrimento. Muitas das crianças nessa situação jamais se integrarão à sociedade.

Nas rondas compassivas das terças-feiras, nós, os Cuidadores de Francisco, temos deparados com casos assim e um deles chama a nossa atenção: o de quatro irmãos órfãos que cresceram nas ruas, jamais puderam viver com dignidade, mas aparentemente conseguiram cultivar virtudes básicas como sobreviver sem ferir ou lesar o próximo.

Na ronda da noite de ontem, sob chuva forte, surpreendemo-nos por encontrar no local de sempre apenas um dos irmãos, Eduardo, dormindo no chão e tendo por travesseiro apenas um livro religioso. Por que? Ficamos então sabendo que Antonio, o irmão que sofre de elefantíase e tem partes do corpo deformadas, sofrera um acidente e fora conduzido ao hospital. Dois irmãos se revezavam na assistência ao familiar ferido, enquanto Eduardo guardava a "casa" da família debaixo de uma marquise.

Gostaríamos que nenhum ser humano dormisse ao relento, sobre o chão úmido, e é por isso que, mesmo podendo pouco, semanalmente vamos ao encontro dos irmãos moradores das ruas para oferecer-lhes o que temos: nosso abraço, carinho e escuta, além de uma pequena ajuda material. Mas damos graças a Deus por percebermos em demonstrações singelas de amor como a dos quatro órfãos a prova de que existe luz no íntimo de cada homem e, assim, sempre persistirá a esperança de um mundo mais justo e fraterno.

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1 ano de alegrias e aprendizado
04/05/2016

Na noite de ontem, como em todas as terças-feiras, nós, Cuidadores de Francisco, fomos recebidos com muita alegria pelo primeiro grupo de irmãos carentes das ruas que costumamos visitar. João Vítor e Erick, duas das crianças que acompanham seus pais, estavam lá para nos ajudar na montagem da bancada para distribuição do lanche e também na entrega das cestas básicas. Digo que eles são nossos secretários, eles sorriem.

As crianças são um capítulo especial nas rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco, sejam elas filhos dos irmãos assistidos ou nossos filhos e netos que seguem ao nosso lado. E ontem elas pareciam mais alegres. Nós também. Amanhã, quinta-feira, nossa relação com os moradores de rua completará 1 ano e isso é motivo de grande contentamento para o nosso pequeno grupo de amigos do Sapiens.

Nesse período aprendemos bastante sobre a vida e fomos muito beneficiados pelos companheiros que, aparentemente, são os beneficiários de nosso trabalho. Vínculos de afeto foram estabelecidos, passamos a conhecer melhor cada um desses irmãos carentes e, como resposta à nossa atenção, carinho, paciência e alegria, temos sido agraciados com o calor do abraço fraternal e dos gestos de amor e confiança.

O pequeno grupo de Cuidadores que saem às ruas é só uma parcela dos corações que tornam possível as nossas rondas compassivas, com suas doações constantes e silenciosas. Somos gratos a todos. Somos gratos a Deus!

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Famílias partidas
20/04/2016

Felipe saiu do Chile há quase três anos e, desde então, perambula pela América do Sul. No Brasil foi roubado e, sem recursos, tornou-se morador de rua. Estava com fome e frio quando o encontramos. Felipe tem 33 anos, é inteligente, bem articulado. Canta e toca instrumentos.

Felipe diz que sente saudade de casa, sente saudade da mãe. Mas, quando lhe pergunto se tem mantido a comunicação com a família, seus olhos se entristecem e ele responde: "Minha mãe não gosta de mim".

Não sabemos toda a história de Felipe. Não sabemos como os seus laços familiares se romperam. Não sabemos onde começou a rejeição - se nele ou nos membros de sua família - e desconhecemos as dificuldades que geraram essa situação. Mas sabemos que há dor em seu coração, no coração de sua mãe e nos de seus familiares distantes.

O rompimento dos laços de família está por trás do drama de boa parte dos irmãos carentes que vivem nas ruas. E isso reafirma em nós a convicção de que todo conflito e carência começa quando o amor se enfraquece. Por outro lado, sabemos que o amor é forte e contagiante e quando adicionamos uma gota de amor ao coração de alguém sua vida pode começar a mudar.

Nesta terça-feira, após mais uma singela ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco, fortaleceu-se em nós o desejo de continuar acrescentando ao lanche, à cesta básica, à roupa e ao remédio levados aos irmãos de rua a maior doação que somos capazes de realizar: nossa atenção, nosso carinho, nossa escuta incondicional, nossa paciência.

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Nada mais é preciso... Graças a Deus!
30/03/2016

A caravana dos Cuidadores de Francisco já estava se despedindo dos irmãos moradores de rua quando a voz de Djanilson chegou até nós.

- Sou feliz, muito feliz - gritava, sorrindo, o homem de pés descalços, a pele negra marcada pela ação do sol. - Existem pessoas que gostam de mim. Agradeço a Deus por isso!

Djanilson é nosso velho conhecido. Às vezes o encontramos bêbado, mas nem assim lhe falta o sorriso com que nos recebe. Um dia desses ele me contou que recebera a melhor educação possível de sua mãe, uma pobre mulher do bairro das Rocas que sempre o orientou a "fazer as coisas certas", mas acabou seguindo outro rumo e hoje vive longe da família, nas ruas.

Ontem, ele estava sóbrio e entretido com a leitura de um livro religioso enquanto seus companheiros de grupo dormiam na calçada. Suas palavras ditas ao vento expressam, a meu ver, a felicidade de um coração grato após ser tocado pelo amor.

Ver Djanilson perceber que é amado é uma alegria imensa para nós, dos Cuidadores de Francisco. Também estamos felizes! É exatamente isso que almejamos para todos os irmãos de rua por nós visitados nas noites das terças-feiras. O pequeno lanche, a cesta básica, a roupa e, eventualmente, o remédio, ainda que necessários, são complementos à maior doação que podemos fazer ou receber: a doação do carinho, da escuta, do abraço.

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Coisas do amor
16/03/2016

Início da madrugada. Em círculo, nós e um grupo de irmãos moradores de rua estamos de mãos dadas, agradecendo a Deus pela alegria de mais uma ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco. Em ocasiões como essa, quase sempre é um irmão de rua que conduz a prática, expressando-se de seu jeito. Mas dessa vez, é um integrante de nosso grupo que recita o "Pai Nosso".

No final, um jovem franzino e bem-humorado nos questiona:

- Faltou uma Ave Maria! Nossa Senhora também merece nosso respeito.

- Da próxima vez, você mesmo pode incluir sua Ave Maria - respondo, enquanto abraço o garoto.

Mas, ao meu ouvido, ele anuncia:

- Da próxima vez, talvez eu não esteja aqui. Não sou mais morador de rua. Às vezes venho só para ficar com eles, gosto da companhia de meus irmãos.

Então, fico sabendo. O jovem franzino, tão pobre quanto seus companheiros, naquela noite já cedera seu lençol a um irmão que dormia no chão, descoberto. Estava ali, também dormindo ao relento, por pura solidariedade.

Coisas do amor! Coisas de Francisco!

Que belo e auspicioso. No século 21 ainda podemos encontrar garotos que conseguem ser tão compassivos com os irmãos carentes quanto o foi o jovem "louco" de Assis. Meninos que sentem alegria em ajudar, em servir, e que em sua prática silenciosa reacendem em nós a convicção de que o mundo não está pior. O amor segue produzindo seus milagres.

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Pobres, trabalhadores e dignos
09/03/2016

O preconceito rotula e discrimina: morador de rua é marginal que ameaça a paz e a integridade das pessoas que tem casa, trabalho, comida e conforto.

A realidade desmente o preconceito: a maioria dos irmãos que dormem nas ruas é gente pobre e honrada, que trabalha duro o dia inteiro, mas não consegue remuneração suficiente para pagar aluguel ou manter uma família.

Nós, dos Cuidadores de Francisco, temos contato com a realidade. A cada terça-feira encontramos nas ruas catadores, jardineiros, guardadores, biscateiros em geral, irmãos que trabalham honestamente ajudando a manter a cidade limpa e as pessoas saudáveis sem que o seu esforço seja reconhecido ou retribuído à altura.

Na noite passada, quando realizamos mais uma ronda compassiva, não foi diferente. Nossa escuta, nosso abraço e o pouco de alimento e vestuário que lhes fornecemos tem estabelecido a comunicação que nos revela a face digna e honrada desses irmãos.

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Um pão e uma lição de vida
02/03/2016

Damião recebe o pão com manteiga e mortadela e saboreia-o como quem desfruta de um banquete. Ele é um dos mais tímidos do grupo de moradores de rua, mas, dessa vez, após o lanche, pede a nossa atenção pra contar uma história real.

- Quando eu criança, lá na Paraíba, sentia fome e pedia pão, mas minha mãe nem sempre tinha um para dar - diz, enquanto arruma o corpo sobre a cama de cimento - a calçada -, respingada de chuva na madrugada desta terça-feira.

Olha para nós com olhos brilhantes de quem sente profundamente o que está dizendo e continua:

- Aí eu chorava e ela mandava eu abrir a mão. Colocava li um punhado de farinha, pedia para eu comer, dava-me um gole de café e, no final, sempre dizia: agora agradeça a Deus porque temos farinha e café.

Graças à sabedoria de sua mãe, Damião cresceu sabendo que era preciso ser honesto e ganhar a vida com o próprio trabalho. E, a longo dos anos, nunca deixou de aplicar os conselhos de sua mãe. Sem estudo e oportunidade, trabalha duro nas ruas como lavador de carros e é grato pelas pequenas coisas, mesmo que seja um simples pão com manteiga.

- Eu nunca esqueci o que minha mãe falava - diz, com convicção.

E nós, seus amigos dos Cuidadores de Francisco, jamais esqueceremos o ensinamento que ele nos deu sobre gratidão e alegria de viver nesta madrugada chuvosa.

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O ano da compaixão
24/02/2016

Na madrugada úmida, o homem sentado na calçada, tórax nu, massageia o pé esquerdo e me leva a pensar que está machucado.

- É uma ferida no pé, amigo? Podemos aplicar um curativo.

O homem ergue a cabeça e uma lágrima rola em sua face:

- Não. Minha ferida é no coração.

Tocado por sua emoção, penso no que Francisco, o carinhoso "louco" de Assis, poderia lhe dizer e logo as palavras surgem em meus lábios sem o comando do pensamento.

- Então, amigo, o curativo é um abraço.

Nossos braços se encontram, nossas cabeças se tocam e, por alguns segundos, a alegria de sermos gente abraçando gente alivia dores, seca lágrimas. Nossas almas, separadas e juntas, recolhem do mistério da vida o alimento e o remédio de que precisam para prosseguir em seus caminhos. Nenhuma indagação,nenhuma pergunta invasiva, nenhuma explicação.

A nossa noite, a noite dos Cuidadores de Francisco, está completa. 2016 será o ano da compaixão.

* * * * * * * * * * *

No recomeço de nossa jornada, nesta terça-feira, 23/02, a vida quis realçar o foco de nossa missão e a doação mais nobre que podemos fazer. Os irmãos moradores de rua são isso mesmo - nossos irmãos! - e estar junto deles, olho no olho, coração ouvindo coração, é o ápice de nossa tarefa solidária.

A partir de agora, voltamos a compartilhar o "pouco imenso" que o amor dos amigos concentra em nosso pequeno grupo. Levamos o pão e o café que aliviam a fome, o curativo que cicatriza a carne, a roupa, o calçado e o cobertor usados que esquentam os corpos, a cesta básica insuficiente para tantos e, sobretudo corações - os nossos e os de nossos apoiadores - para o ágape em que todos nos saturamos de vida e afeto.

Gratidão! Gratidão a Deus! Gratidão a todos os que contribuem para as humildes - e luminosas - rondas compassivas dos Cuidadores de Francisco.

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A Noite Feliz dos Cuidadores de Francisco
23/12/2015

Feliz Natal! Na noite de ontem e madrugada de hoje tivemos, com certeza, o nosso melhor momento de convívio com os nossos irmãos carentes das ruas este ano. Com a colaboração dos doadores amigos do Sapiens e a participação do coral "Sintonia de Luz" (música) e do grupo de jovens "Fabricando Sorrisos" (doações), pudemos partilhar com os nossos companheiros assistidos de todas as terças uma linda festa e confraternização, em comemoração ao Natal de Jesus.

Além de nossos abraços e sorrisos e do lanche tradicional, pudemos oferecer brinquedos e guloseimas para as crianças - com a participação de nossos filhos e netos! - e música, música cantada com o coração.

Sim! Somos gratos a Deus e a todos os amigos que colaboraram para que essa noite inesquecível fosse possível. Feliz Natal! Feliz Natal!

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Quando o amor chega, a alegria se revela
16/12/2015

Mais uma ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco chega ao final. O espírito natalino começa a mudar o humor e até a quantidade de pobres nos agrupamentos de rua à noite, como pudemos constatar nessa terça-feira. Mais gente e mais gente alegre, mais sorrisos e mais abraços.

Em princípio, podemos atribuir isso ao interesse por receber presentes que começam a chegar via grupos de assistência e doadores individuais movidos pelo espírito do Natal. Mas não seria apropriado também considerarmos que o humor dos grupos melhora porque, no clima natalino, também muda a abordagem das pessoas que agora os procuram para confraternizar e ajudar? O amor, mesmo tímido, tem uma capacidade enorme de gerar vida e alegria, de derrubar barreiras e estabelecer a comunicação genuína em que todos se nutrem e se realizam.

Ah! Como Francisco, o inspirador pobrezinho de Assis, estaria feliz entre nós. O amor e a compaixão é o grande milagre da criação. Gratidão a todos os amigos do Sapiens que contribuem para realização desse banquete fraternal. Terça-feira - apesar do recesso do Sapiens, iniciado ontem - teremos mais, inclusive com a participação de nossas crianças.

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Crianças Cuidadoras
09/12/2015

Com o início das férias escolares, nossas crianças estão de volta às ações dos Cuidadores de Francisco. Na ronda noturna desta terça-feira, elas foram ao encontro de outras crianças, filhos de irmãos carentes das ruas assistidos por nosso pequeno grupo. Nossas crianças agregam alegria ao nosso trabalho fraternal e ampliam o amor que podemos oferecer às crianças das ruas e seus pais.

Além disso, para nós, pais e avós, levá-las conosco é o jeito mais eficiente de ensinar compaixão e solidariedade e evitar que novos muros se ergam separando as pessoas.

Gratidão a Deus e aos amigos do Sapiens que contribuem para que os Cuidadores de Francisco continuem servindo.

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